Quais são as lições da natureza? Textos por Felix Richter.

Há séculos se discute qual o grande valor da Amazônia e do Pantanal. Para uns, o valor está no aproveitamento sustentável – como se pode ter com o ecoturismo, a exploração controlada de madeiras e as pesquisas científicas –, enquanto outros acreditam que o grande valor esteja relacionado a questões climáticas e ambientais. Pessoalmente, considero o equilíbrio o maior valor da natureza. Ao visitar um ecossistema perfeitamente equilibrado, tem-se se a rara oportunidade de introspecção. Percebe-se o caráter irreal de nossas agonias, fundadas em julgamentos e expectativas. O processo de introspecção é lento, sendo raramente alcançado em uma única visita à selva. Antes, é preciso familiarizar-se com o ambiente.

Proteção da natureza ou da humanidade?
O termo “proteção da natureza” é equivocado. A natureza não precisa, tampouco pede para ser protegida. O correto seria qualificar a preservação do meio ambiente como “proteção da humanidade”. A natureza é um organismo de existência contínua, que simplesmente se adapta a uma infinidade de variáveis. Mesmo se o homem tentasse acabar com toda vida na terra, em algum abismo, talvez no fundo do oceano, sobreviveria uma colônia de bactérias. E destas bactérias evoluiria, em milhões de anos, um novo e complexo sistema de vida, talvez parecido, talvez oposto ao sistema de hoje. Ao preservar a natureza estamos garantindo a sobrevivência do ser humano. E este, é hoje, o grande desafio da humanidade: garantir o nosso futuro.

A importância do todo
Uma das maiores curiosidades da selva é como, aos poucos, os visitantes mudam de foco. No início interessam-se por animais de grande porte ou beleza, como a onça, araras, bicho-preguiça e anta. Aos poucos, passam a se interessar pelo microcosmos, os insetos. E, só então, percebem a imensidão do todo, a grandeza da selva. Este processo pode demandar várias visitas à selva, razão pela qual muitos visitantes jamais realizam a floresta. Libertar-se dos detalhes é fundamental para a visão do todo. Não só na selva, mas em qualquer cotidiano. Só que se trata de um processo, não de um simples ponto de vista ou aprendizado.

Morte e fidelidade
Araras e papagaios são os mais fiéis dos amantes do reino animal, tendo, por regra, um único parceiro por toda uma vida. Diz a lenda que uma arara, quando o parceiro morre, vive solitária pelo resto de seus dias. Parece mesmo ser lenda. Há poucos relatos de araras solitárias. Geralmente estão em pares ou grupos com filhotes. Levar a fidelidade para além da fronteira da vida é uma opção humana. Sem julgamento. 

Preocupações da cidade
Como jornalista, sempre evitei as aldeias de índios na Amazônia. Acredito que eles devem ser deixados em paz. São parte da selva e parte da selva devem ser. Mas existem inúmeros caboclos morando na floresta. Estes, sim, despertam-me curiosidade, pois vivem na beira de nosso sistema sócio-político. Sustentam-se principalmente da pesca, de pequenas plantações e do artesanato. Sabem do mundo através do noticiário, transmitido pelo rádio de pilha. E, mesmo morando no meio da selva, preocupam-se com os problemas trazidos pelos radialistas da cidade distante.

A selva como casa
O que leva uma família a morar na floresta, isolada das cidades e do convívio social? Subindo o Rio Negro, rumo ao coração da Amazônia, podem-se encontrar algumas famílias vivendo sozinhas, distantes de qualquer comunidade. Adultos sem televisão, crianças sem brinquedos. Têm somente uns aos outros, e têm a selva.

Dificuldades
Mesmo no mais farto dos ecossistemas, há períodos difíceis. De repente o rio seca, as plantas murcham e o alimento torna-se escasso. Muitos animais morrem nestes períodos, outros sobrevivem. Qual será a diferença entre dois animais da mesma espécie, habitantes do mesmo trecho da floresta, um sucumbindo à escassez enquanto o outro sobrevive, tornando-se inclusive mais forte? Acaso, destino, porte físico, genética, capacidade de adaptação, inteligência ou determinação? Talvez um pouco de tudo, ou não. É indiferente.

A cobra
A cobra tem fama de traiçoeira, símbolo cristão do pecado e da tentação. Na Amazônia, esta fama inexiste. Aqui a cobra é um animal como qualquer outro, fazendo parte de um ecossistema complexo. Afinal, quem é traiçoeiro: um roedor que se alimenta de mudas de árvores ou a cobra, equilibrando a população de roedores? Na floresta não há julgamentos, certo ou errado, bem e mal. Somente a existência do equilíbrio.

Preocupado com o futuro?
Na Amazônia não existe ano, mês, semana. Somente dia e noite, nascer e pôr-do-sol. A vida se faz do momento. O animal faminto busca por comida. O cansado descansa. O desconfiado se esconde, o enamorado paparica o parceiro. Sem passado e futuro, longe de planos ou arrependimentos. Só o agora existe. O depois é obra do destino.

Estes textos fazem parte do livro Lições de um Brasil Selvagem. No livro há diversos outros textos. Os textos e todo conteúdo deste site são protegidos pela lei do direito autoral, e não podem ser copiados.