Nas diversas incursões a natureza, o fotógrafo Felix Richter vivenciou algumas situações inusitadas que ele descreve abaixo como uma espécie de” making off” do livro. Veja também algumas fotos do dia-a-dia na natureza.

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Encontro com a onça
Encarar a onça-pintada sozinho e a pé é uma sensação sufocante e ambígua: a emoção de avistar o maior felino das Américas no habitat selvagem, contrasta com o desconforto de um possível ataque. A pintada do Pantanal é a maior onça do mundo, principalmente devido a fartura de alimentos em comparação a outros ecossistemas. Ela é gorda de tão forte, pesando quase o dobro da onça amazônica. Consegue matar e arrastar um boi adulto, com mais de meia tonelada de peso. Há diversos relatos de criadores de gado sobre onças pulando cercas de um metro e meio de altura levando novilhos entre os dentes. A pintada tem a mordida mais potente entre todos os felinos do mundo, superando o leão e até mesmo o temido tigre de bengala. Em maio de 2007 fiz a minha décima quinta viagem ao Pantanal, em um período de três anos. Já conhecia bem o ecossistema pantaneiro, ao ponto de me sentir seguro para me aventurar sozinho pela mata. Certa manhã deixei a sede da fazenda onde estava hospedado e caminhei beirando o Rio Negro, território preferido da onça-pintada. Mas não buscava o grande predador, após 15 viagens sem avistar a pintada havia desistido da procura, esquecendo-me que existia a possibilidade de um encontro casual. Caminhei por cerca de 3 quilômetros até um local onde o fluxo do rio invadia um pedaço de terra plana, formando uma baía estreita. Comecei a fotografar detalhes de árvores, folhas, insetos e galhos. O local era exposto e havia poucas possibilidade de movimentação, pois estava encurralado pela água. De repente ouvi um urro que doeu na espinha. Sem conhecer o rugir de uma onça, soube, com toda certeza, que atrás de mim havia uma onça-pintada. Girei a cabeça e, instintivamente, o olhar mirou a pintada, mesmo camuflada dentre um arvoredo. Menos de 20 metros nos separavam. A sombra intensa das árvores somado ao dia ensolarado, só me permitiram enxergar o contorno da onça e um leve luzir dos olhos, fixos, me encarando. Estatelei. Fugi do olhar direto, observando a silhueta de relance. O meu futuro estava na vontade de uma onça, e essa foi de longe a sensação mais estranha que já tive. A minha continuidade dependendo de um gigante predador, movido somente por instintos. Vale ponderar que no Pantanal há poucos registros de ataques de onça a humanos, e que a grande probabilidade era mesmo que nada fosse me acontecer, mas quando se encara uma onça não há estatísticas, somente o momento. A sensação que se tem é de cara ou coroa entre a vida e a morte. Ela me observou durante poucos segundos, depois mudou de rumo e desapareceu na mata, sem foto, tudo foi rápido e intenso. Assim que a onça sumiu comecei a tremer, mas logo me recompus. Não é recomendável exalar medo na proximidade de uma pintada. Respirei fundo, esperei cerca de dez minutos e retornei à sede da fazenda com a sensação de poder encontrá-la novamente a qualquer momento, o que não aconteceu.

Estrela cadente
Na minha terceira e última viagem à floresta da Amazônia, vi uma estrela cadente. Passou a poucos centímetros da lua cheia que pintava uma faixa dourada no Rio Negro. Eu estava na popa de um barco de médio porte, e o silêncio da floresta era, na verdade, uma sinfonia de insetos e anfíbios. Lembrei-me então da lenda de que uma estrela-cadente dá direito a um pedido. Envolto por toda beleza do mundo cerrei os olhos para enxergar. O que, naquele instante tão especial, eu poderia pedir? Fortuna interminável, felicidade duradoura, sucesso incontido, reconhecimento, amor ou paixão? Abri os olhos, fitei a lua e fiz o mais sincero dos pedidos: que a natureza aceitasse a minha eterna gratidão.

Uma nuvem de abelhas
Aconteceu na minha primeira excursão ao Pantanal, quando fotografava pássaros em um vazante. Vazante é um corredor por onde escorre água que acumulou-se durante a época da cheia. Na estação da seca as vazantes formam um gigante tapete de capim baixo, onde aves costumam se aglomerar. De repente, ouço um zumbido se aproximando, parece o ruído de um avião, e olho para o céu na busca pela aeronave. Noto então uma gigante nuvem de insetos vindo exatamente na minha direção. Em segundos me alcançam, são abelhas, e voam em torno de mim. São milhares. A minha única reação é não reagir, paro até de respirar. Tudo está preto, só vejo abelhas. O encontro durou poucos segundos, até que as abelhas se afastaram. Confesso que após a partida das abelhas fiquei bastante nervoso, com receio que voltassem. Mais tarde pesquisei sobre as abelhas e descobri que em situações como a do nosso encontro geralmente são inofensivas, o segredo é não reagir. As abelhas no Pantanal somente apresentam perigo quando alguém aproxima-se da colméia ou quando se irritam com ruídos excessivos. Elas me rodearam por curiosidade. Sentiram os aromas causados por protetor solar, desodorante e outros, e foram verificar se eu era alguma fonte de alimento.

Ataque dos marimbondos
Com os marimbondos tive menos sorte que com as abelhas. Certo final de tarde cruzávamos uma parte alagada do Pantanal em uma carreta rebocada por um trator. Além de mim, havia um casal de turistas (Benjamin Müller e Dagi) e o dono da propriedade que explorávamos. Quando o trator passou por uma trilha estreita e com muita pouca luz, um galho resvalou no Benjamin e em seguida em mim. Benjamin imediatamente começou a gritar que estava sendo atacado por abelhas assassinas. Eu só senti as ferroadas alguns segundos depois e, acreditando tratar-se de formigas dentro da roupa, arranquei a camisa. Tudo foi muito rápido. Quando saímos da trilha eu contei mais de 20 ferroadas no meu corpo. Estávamos ambos muito inchados. Alguns dos insetos haviam se prendido na minha camisa e assim descobrimos tratar-se de marimbondos-chapéu. Por sorte nenhum de nós dois teve uma reação alérgica grave e após poucos minutos o inchaço desapareceu.

O gavião-caracará
O meu vínculo com o Pantanal mudou certa manhã ao partir sozinho para canoagem no Rio Negro – o grande segredo da integração com a natureza é estar desacompanhado. Após quarenta minutos de exaustivas remadas contra a correnteza e vento, alcancei um banco de areia no meio do fluxo do rio. Puxei a canoa à beira e sentei com os pés descalços para dentro da água. O vento havia acalmado e o sol das nove horas castigava. Tomei um gole d’água do cantil e decidi refrescar-me no rio. A questão das piranhas é controversa: há quem morra de pavor e não coloque um único dedo nas águas pantaneiras, enquanto outros se banham sem maiores preocupações. É preciso ter algumas noções básicas, como nunca aventurar-se em águas paradas e evitar afastar-se excessivamente da beira do rio. Não me aventurei para o fundo, molhando o corpo na água de um metro de profundidade. Saí do rio e sentei na beira d’água. O banco de areia media aproximadamente 20 metros de comprimento por quatro de largura. Eu me encontrava em uma das extremidades, enquanto na outra um grupo de cinco jacarés banhava-se no sol. Alguns talha-mares (aves) cuidavam de seus ninhos e vez em quando me sobrevoavam aos berros, incomodados com a presença humana. Se acalmaram. Permaneci ali imóvel, realizando a natureza como nunca antes. Pela primeira vez na vida sentia a selva na minha alma, cada arbusto, árvore, grão de areia, a brisa, o rio, o céu e a terra. Cerrei os olhos e tirei todo peso da mente. No imaginário flutuei por sobre a natureza intocada, vi os mais diversos animais, nuvens de todas as formações, chuvas e arco-íris. Ao abri os olhos, sem saber quantos segundos ou minutos se passaram, encontrei um enorme gavião-caracará pousado do meu lado. Ele pouco se importou com a minha presença, bebia água do rio. Poderia tocá-lo com a mão se quisesse, tão próximo estava. E assim permanecemos lado a lado, por longos e interessantes minutos, até que ele levantou vôo. A proximidade do gavião mudou a minha relação com a natureza para sempre. Deixei de ser um observador que afugenta os animais com qualquer movimento mal-pensado, para, aos poucos, me tornar parte, nem predador, nem presa, um elemento neutro, tolerado por todos, respeitando a todos. Após este dia a proximidade extrema com um animal selvagem repetiu-se por diversas vezes, sem que eu precisasse me camuflar. Mas são momentos, não é um estado contínuo. Quando caminho pela natureza, de repente me sinto leve, livre de angústias, longe de preocupações, sem pensamento complexos, apenas existindo e seguindo o meu rumo, e então, como se fosse magia, e é magia, os animais não se incomodam com a minha presença.